| Notas, compassos e bits |
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| Veículo: Jornal do Commercio |
| Dom, 02 de Janeiro de 2011 |
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Leia aqui matéria publicada na edição de três de janeiro de 2011 do Correio Braziliense, e replicada com o título Música eletrônica: do erudito ao pop no site do jornal, sobre a música eletrônica que Rodrigo Cicchelli, professor da Escola de Música como uma das fontes.
Notas, compassos e bits Carolina Vicentin
Do surgimento do primeiro instrumento eletrônico aos computadores que viraram verdadeiros estúdios portáteis de gravação, fazer música passou por uma revolução.
O compositor francês Claude Debussy, provavelmente, não imaginava o que estava por vir quando disse, lá pelos idos de 1900, que o século do avião merecia uma nova música. Anos antes, um norte-americano inventou o primeiro instrumento musical eletrônico (veja quadro), inaugurando uma era que só foi se consolidar na década de 1960. De lá para cá, muita coisa aconteceu e os eruditos se renderam à manipulação do som, ao ponto de deixar a batuta (quase) na mão de robôs. O Correio conta como foi essa história, na primeira de uma série de matérias sobre a interação entre arte e tecnologia. Até 17 de janeiro, às segundas, quartas e sextas-feiras, o leitor vai saber como as novidades da eletrônica mudaram a vida dos artistas que trabalham com música, dança, pintura, escultura, literatura, teatro e cinema.
Tecnologia não é coisa recente. Cada época tem seus recursos de “última geração” e todo mundo se aproveita deles, inclusive os artistas. “Em 1700, também havia alta tecnologia, com luthiers (pessoas que fabricam instrumentos musicais) talentosos, que descobriam novas formas de montar as peças”, lembra o maestro Jorge Antunes, professor do Instituto de Artes da Universidade de Brasília. O que se conhece hoje como música eletrônica, contudo, surgiu em 1950, na Alemanha. Compositores um tanto quanto obstinados passaram a criar canções com a técnica do serialismo, que consiste na composição de cada parâmetro musical individualmente, formando vários pedacinhos com notas, alturas e intensidades diferentes. É como se cada momento da canção tivesse características tão específicas que a execução da música como um todo se torna impossível. Pelo menos, para o homem.
Essa complexidade toda ganhou um meio de viabilização quando surgiram as primeiras fitas magnéticas. Sim, foram elas as responsáveis pelo aparecimento da música eletrônica. “Era um trabalho artesanal. Os compositores gravavam som por som, recortando e colando os pedaços da fita, montando uma música que jamais poderia ser tocada da forma tradicional”, conta o professor Antunes, o primeiro brasileiro a trabalhar com o novo estilo no país.
Os eruditos acabaram abandonando o termo “música eletrônica” no fim da década de 1960, quando surgiram bandas de rock progressivo. Grupos como Tangerine Dream e Kraftwerk utilizavam os mesmos recursos dos eruditos, só que para fazer música pop. A academia, então, adotou o nome “música eletroacústica” e passou lançar mão de sintetizadores nas composições. “Isso facilitou o nosso trabalho, porque, até então, os equipamentos não eram específicos para músicos”, conta o professor Antunes.
Computadores só apareceram no fim da década de 1980 e provocaram outra revolução entre os compositores de música clássica. O digital deixou os equipamentos ainda menores, mas obrigou os eruditos a se adaptarem ao mundo virtual. “Os programas de computador permitem que a gente faça na tela tudo que antes fazíamos artesanalmente”, diz o maestro Jorge Antunes.
As máquinas que trabalham com bits foram as responsáveis pelo surgimento de outra classe de compositores: os que mexem com computação musical. Essas pessoas usam o computador não só para montar a canção, mas para fazê-la. O pioneiro nessa área foi Max Methews, um norte-americano que inventou os primeiros programas de síntese digital. “A computação musical é uma arte em si. Ao invés de ter um autor, é a máquina que compõe. É claro que para fazer isso, ela precisa ser preparada com algum tipo de teoria da música”, explica o professor Aluízio Arcela, do Departamento de Ciência da Computação da UnB.
E engana-se quem pensa que a tarefa é fácil. Cada compositor cria um programa e a composição vem daí. Alguns são mais simples, outros podem ser utilizados várias vezes, mas criar algo elaborado exige dedicação. “É como na literatura. Você pode usar as mesmas letras para escrever um bilhete, um e-mail, um texto de jornal, um romance, um poema. Nem tudo tem qualidade literária”, compara o professor Arcela, que chega a passar meses debruçado sobre uma composição. “É uma falsa ideia a de que a computação deixa tudo mais rápido. Nós levamos tempo até dominar o conhecimento.”
Instrumentos do futuro
Além dos músicos apaixonados por bits, há pesquisadores que se dedicam à criação de novas interfaces para a produção musical. “Os instrumentos não mudaram durante o século 19, talvez eles comecem a mudar agora. Videogames são equipamentos inspiradores nesse sentido: a tecnologia eliminou a necessidade de um joystick para brincar. Talvez o mesmo ocorra com a música”, sugere o professor Rodrigo Cicchelli, da Escola de Música da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Nessa “aventura”, o nome mais emblemático é o do pesquisador Tod MacHover, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT). Tod trabalha há mais de 20 anos pesquisando hiperinstrumentos: aparelhos musicais que, ligados a sensores e a programas de computador, têm seu som modificado ou complementado. O trabalho do professor inspirou os criadores do game Guitar Hero, que foram seus alunos no MIT, e foi utilizado por artistas consagrados, como o cantor Prince e o violoncelista Yo-Yo Ma, considerado um dos mais importantes da história.
Na década de 1990, esse “professor Pardal” da música criou a Brain Opera, uma peça em que a plateia recebia óculos para ver em três dimensões e era convidada a tocar em objetos de uma sala virtual que se apresentava na tela. Os movimentos dos espectadores viravam som, numa espécie de parque de diversões interativo. Tod também é o inventor do HyperScope, um software de criação musical para gente que não entende nada do assunto, inclusive, para crianças. Este ano, Tod MacHover colocou em prática algo que só era visto em filmes de ficção científica: uma ópera tocada por humanos e robôs.
Em Death and the Powers, que estreou em setembro no Principado de Mônaco, os objetos de sala de um milionário, interpretado pelo barítono James Maddalena, herdam a sua consciência pouco antes de ele morrer. O ator/cantor sai de cena, mas sua voz, movimentos e pulsações são acompanhados por sensores, que enviam sinais para alterar o som da orquestra (escondida do público) e mexer os objetos do palco, além de contracenar com nove robôs cantores.
Manifesto das artes
As sete artes clássicas foram definidas, quem diria, quando surgiu o cinema, a última delas. O termo “sétima arte” foi usado pelo crítico italiano Ricciotto Canudo em um documento publicado em 1923. Cada arte diz respeito a uma representação: som (música), movimento (dança), cor (pintura), volume (escultura), representação (teatro), palavra (literatura) e a integração de todas as artes (cinema).
Pedaços do som
Cada instante de uma música é composto por vários parâmetros: altura (agudo, grave, etc), timbre (do oboé, da flauta, do som eletrônico), intensidade (forte, plano, planíssimo), ataque (brando, duro, abrupto), forma dinâmica (que cresce, que diminui), nota… Em 1924, surgiram os primeiros compositores que quiseram serializar os parâmetros: o chamado dodecafonismo foi o embrião da música eletrônica, porque os artistas queria uma altura diferente para cada momento da canção.
Nasce o eletrônico (Quadro)
Nos últimos 120 anos, a humanidade inventou uma série de equipamentos que digitalizaram a música. Veja o que nos espera no futuro:
• O primeiro instrumento eletrônico foi criado em 1897 pelo norte-americano Thaddeus Cahills. O telarmônio, ou telharmonium, era como um sintetizador, construído a partir de captadores de som de telefones. O aparelho ocupava uma sala inteira.
• Quem levou a fama de pioneiro, porém, foi o teremim, inventado pelo russo Lev Sergeivitch Termen, em 1919. Basicamente, o teremim capta a movimentação das mãos do músico e consegue produzir sons bastante diferenciados. O instrumento foi muito explorado em filmes de ficção científica dos anos 1950 para produzir o barulho de espaçonaves.
• Outro equipamento futurista foi o intonarumori, do italiano Luigi Russolo. Ele estava entusiasmado com o som das grandes cidades e quis criar uma orquestra de ruídos, como um grande roncador. Infelizmente, nenhum de seus originais sobreviveu à Segunda Guerra Mundial.
• Foi a partir de então que as mudanças começaram a se disseminar. Em 1948, um engenheiro francês decidiuestudar como os sons poderiam ser gravados sobre diferentes suportes: discos de cera, cilindros, vidros, etc. Pierre Schaeffer criou o que seria a vertente mais radical da música erudita.
• Os computadores só foram entrar na história no fim dos anos 1950, quando o norte-americano Max Methews desenvolveu os primeiros programas de síntese digital, que transformavam em som arquivos gerados pela máquina. Com o passar do tempo, esses softwares ficaram mais baratos e populares.
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