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O Guardião das Partituras PDF Imprimir E-mail
Veículo: Revista da União Brasileira de Compositores   
Dom, 12 de Dezembro de 2010

Leia aqui entrevista com Turíbio Santos, violonista e docente da Escola de Música, publicada na edição de dezembro de 2010 da Revista da União Brasileira de Compositores.

 

revistaubc-2010-dez

 

O Guardião das Partituras


O violonista Turíbio dos Santos deixa o Museu Villa-Lobos mas continua cuidando do acervo musical na ABM


Por Eduardo Fradkin

Fotos de divulgação / Sandra Santos


Após 24 anos na direção do Museu Villa-Lobos, instituição fundada pela viúva do compositor e dedicada a difundir sua obra, o violonista Turíbio Santos decidiu deixar o posto. No entanto, continua a cuidar das obras desse compositor e de muitos outros como presidente da Academia Brasileira de Música (ABM), que está num período de recuperação, após ter sido afetada pela crise econômica mundial. Turíbio fala sobre o trabalho de correção de partituras de Villa-Lobos, que está sendo realizado pela academia, sobre patrocínio público para a música clássica e sobre o curso de violão da UFRJ, que ele inaugurou há 20 anos, entre outros assuntos.


O senhor está completando um ano na presidência da Academia Brasileira de Música. Qual a situação que encontrou e como estão as coisas agora?

TS: A academia teve que dar uma freada nos gastos, porque os royalties da obra de Villa-Lobos, que são a principal fonte de renda dessa instituição, diminuíram muito. Isso se deveu a dois fatores. Um foi a crise econômica mundial, que fez com que as orquestras passassem a tocar mais obras de domínio público. O outro foi a crise no mundo do disco, que reduziu muito a quantidade de gravações. Neste momento, estamos recuperando terreno. Além disso, a academia tem outras fontes de financiamento em que está investindo, como o banco de partituras.


Como funciona esse banco?

TS: Os presidentes que me antecederam na academia - Vasco Mariz, Edino Krieger, Ricardo Tacuchian e José Maria Neves - sempre foram muito solidários com a música de compositores brasileiros e criaram uma série de projetos como esse banco de partituras, que auxilia na organização do acervo de compositores e na sua comercialização. Funciona quase como uma editora. Se um regente quer tocar uma obra de um compositor brasileiro, sabe que encontrará um bom material ali. E acaba recomendando o serviço a outros regentes. Então, esse banco presta um grande serviço à cultura brasileira.


Mas uma boa parte da obra de Villa-Lobos, o compositor que fundou a academia (em 1945), não está em tão bom estado assim, não é? Sabe-se que muitas orquestras não tocam obras dele porque as partituras estão manuscritas e em más condições. A Orquestra Sinfônica de São Paulo, que vai começar a gravar o ciclo completo das sinfonias dele no próximo ano, anunciou que será feita uma revisão crítica dessas obras, para corrigir vários erros de notação nas partituras.

TS: Sim, esse trabalho é necessário. A editora francesa Max Eschig, que detém os direitos de muitas obras de Villa-Lobos, fez um acordo com a ABM para dar um jeito no mau estado de uma grande parcela de partituras em seu poder. Pelo acordo, a academia está revisando e reeditando essas obras e, em troca, fica com o direito de comercializá-las na América Latina. Vamos tentar prolongar esse trabalho o máximo possível, pois a obra de Villa é tão grande que sempre haverá algo a ser feito. Devo dizer também que algumas obras importantes de Villa não pertencem a Max Eschig, como é o caso de "A floresta do Amazonas", que várias orquestras tocam, e que está sob domínio da ABM.


Como o senhor está conciliando o trabalho na academia com a direção do Museu Villa-Lobos?

TS: Estou deixando a direção do museu. Quem o está dirigindo é o (musicólogo) Luiz Paulo Sampaio, que foi meu assessor quando comecei lá. Não fiz um anúncio oficial da minha saída. Não vi motivo para isso porque meu vínculo com o museu vai além da direção. Continuo participando da sua associação de amigos e, como presidente da Academia Brasileira de Música, colaboro com várias ações do museu. Eu assumi a direção em 1986 e, desde então, a academia tem sido uma grande madrinha, apoiando programas sociais como o Projeto Dona Marta, que oferecia aulas de música a crianças de baixa renda, e ações como recuperação de partituras e informatização do acervo. A minha saída do museu também carrega um ato simbólico. A Arminda (viúva de Villa-Lobos, morta em 1985) foi diretora daquela casa por 25 anos. Eu completei 24 anos agora, em 2010. Então foi um gesto de respeito.


Como ex-diretor do Museu Villa-Lobos, que é mantido pelo governo estadual, qual sua opinião sobre financiamento público para a música clássica?

TS: O museu recebe verba do Estado do Rio, mas também tem uma associação de amigos que capta inúmeros patrocínios, e só assim é possível viabilizar, por exemplo, o festival de música que é feito anualmente. Falando como Turíbio, e não como diretor de alguma instituição, eu acho essencial que o Estado apoie a produção cultural e a estimule, criando condições para que os artistas possam trabalhar, mas sem tentar controlá-los. É importante nos mantermos alertas contra qualquer tentativa de controle. As leis de estímulo à cultura, como tudo na humanidade, estão sujeitas a erros. Vai-se encontrando o caminho certo por tentativa e erro. O que não se pode fazer é, num rompante, mudar a lei toda.


Que avaliação o senhor faz da participação das estatais na produção cultural, mais especificamente na música clássica?

TS: Acredito que estão desempenhando um papel importante e cada vez maior. A Petrobras virou uma madrinha da cultura brasileira. Citando um exemplo próprio, eu fiz um disco dedicado a Augustín Barrios, um paraguaio que morou por muitos anos no Brasil, que exigiu uma pesquisa séria da obra dele e foi patrocinado por Furnas.


O senhor continua gravando bastante?

TS: Acabei de gravar um disco com três concertos para violão e orquestra de cordas, acompanhado da Orquestra do Estado de Mato Grosso, regida pelo maestro Leandro Carvalho. Tem um concerto do (Ricardo) Tacuchian, uma suíte de seis danças concertantes que eu compus e o concerto para violão de Villa-Lobos em versão para orquestra de cordas. Ficou muito bonito. Foi gravado com apoio do governo de Mato Grosso, que mantém a orquestra e agora estamos buscando patrocínio para lança-lo comercialmente.


A Escola de Música da UFRJ festejou, neste mês de outubro, os 20 anos do curso de bacharelado em violão, do qual o senhor foi o primeiro professor. Qual o perfil dos alunos naquela época e qual o perfil dos jovens que estudam violão hoje?

TS: Hoje, o violão é o curso mais procurado na Escola de Música da UFRJ. Aliás, isso ocorre também na Unirio e em federais de todo o país. Então, plantamos na UFRJ uma semente que deu frutos. Em 1980, havia um represamento dos estudantes de violão. Eles iam cursar composição e regência para conseguir um diploma e, paralelamente, estudavam violão com professores particulares, porque queriam seguir carreira tocando aquele instrumento. O perfil do estudante de violão, em geral, é o de um músico eclético, aberto a vários tipos de música. Afinal, o violão responde pela música flamenca, pela bossa nova, pela música clássica, pelo rock. É um instrumento muito antigo, mas que só tomou sua forma atual e definitiva há pouco tempo, em 1850, pelas mãos do luthier (Antonio) Torres. Antes, era menor e produzia menos som.


Em sua opinião, qual a fórmula para despertar o interesse pela música clássica nas novas gerações? O que acha de projetos como o que a Heloísa Fischer (jornalista e diretora do Portal VivaMúsica) está empreendendo, como a criação de um bloco carnavalesco que tocará marchinhas baseadas na música clássica ou a realização de concertos com um quarteto em boates?

TS: Acho que vale tudo. O que a Heloísa está fazendo é bom. Os projetos de iniciação musical e os de profissionalização, como o Villa-Lobos e as Crianças, e o que as universidades estão fazendo, com seus cursos técnicos, também é bom. Tudo isso é importante e é um sinal de crescimento e de amadurecimento do país. Acho que seria importante as orquestras abrirem terreno para outros gêneros musicais, sem deixarem de respeitar, evidentemente, o repertório tradicional, o das grandes sinfonias e obras afins. É preciso abrir uma porta para o futuro, Quando Villa-Lobos fez a série das Bachianas Brasileiras e a dos Choros, usando fontes populares para criar música orquestral, ele estava abrindo uma porta para o futuro.

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